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Jogos Olímpicos

Uma quadra de rua, três jogadores de cada lado, vestidos com camisetas largas, movimentos intensos, curiosos vidrados nas jogadas… A cena parece bem familiar para os amantes de seriados americanos. Mas não tem muito espaço nas ruas brasileiras, onde os campinhos de futebol improvisados com Havaianas ainda resistem ao trânsito cada vez mais caótico.

A verdade é que vamos ter que nos familiarizar com o cenário do basquete 3×3, nova modalidade olímpica e que já está confirmada nos Jogos de Tokyo 2020. Antes de mais nada, vamos às regras do jogo. E não é só o número de jogadores que muda em relação ao basquete que estamos mais habituados.

Regras

O basquete 3×3 é jogado em uma quadra de 15x11m, metade da convencional. As demarcações oficiais continuam as mesmas, com linha de lance livre, de dois pontos e o semicírculo debaixo da cesta. A tabela é uma só para as duas equipes, que são compostas por três jogadores titulares –como o próprio nome já indica– e um reserva. O tempo de posse de bola para fazer a cesta é de 12 segundos.

Por falar em pontuação, os lances convertidos de dentro do arco valem um ponto, assim como os lances livres, e as cestas feitas de trás do arco valem 2 pontos. O tempo máximo de duração da partida é de 10 minutos e o cronômetro é paralisado em situações de bola parada e lances livres. No entanto, a equipe que fizer 21 pontos primeiro sai vencedora. Se der empate no tempo regular, tem um minuto de intervalo para depois iniciar a prorrogação, que dura até uma das equipes marcar dois pontos.

Agora que já deu para ter uma noção, é hora de visualizar o basquete 3×3 em ação:

 

Como o basquete 3×3 chegou aos Jogos

É fato que a modalidade não é das mais difundidas no cenário esportivo mundial. Mesmo assim, é um esporte regularizado e possui mais de 50 mil atletas cadastrados pela Federação Internacional de Basquete (Fiba). Além disso, a simplicidade do jogo (afinal, só o que é preciso é uma quadra de rua, a cesta e uma bola!) atrai milhões de adeptos no mundo todo.

A popularização veio na década de 1980, mas o primeiro evento teste de basquete 3×3 organizado pela Fiba só aconteceu em 2007, no Asian Indoor Games, na China. A modalidade estreou em competições internacionais nos Jogos Olímpicos da Juventude, em 2010, e fez tanto sucesso que a Fiba resolveu desenvolver torneios específicos. Foi assim que o basquete 3×3 entrou, de vez, no radar das Olimpíadas e foi aprovada para integrar o programa dos Jogos em junho de 2017.

Quem deve ser batido

O basquete 3×3 ainda é uma modalidade relativamente nova para ter grandes potências consolidadas. Entretanto, já é possível afirmar que a hegemonia é europeia. Dos quatro campeonatos mundiais organizados pela Fiba para os homens, a Sérvia venceu três (2012, 2016 e 2017). Em 2014, a competição foi vencida pelo Catar.

No feminino, as americanas levaram a melhor em 2012 e 2014. A República Tcheca ficou com o título em 2014 e a Rússia foi campeã no mundial deste ano. O Brasil não participou desta edição, pois a Confederação Brasileira de Basquete ainda estava suspensa pela Fiba.

Basquete 3×3 no Brasil

Bom, já é possível perceber que não somos exatamente uma potência com chances de medalha nos próximos Jogos Olímpicos. Para se ter uma ideia, na última edição do Campeonato Mundial que o Brasil participou, em 2014, a seleção masculina terminou em último no Grupo C e a feminina caiu para a Bélgica nas oitavas, por 17 a 8.

O primeiro atleta brasileiro a ter um contrato profissional assinado no basquete 3×3 foi Leandro Souza de Lima, ex jogador do São Paulo DC, contratado este ano pela equipe do Yokohama City, no Japão.

Para mudar esse panorama e ampliar a formação de atletas profissionais, a Confederação Brasileira de Basquete (CBB) deu início a um programa de caça talentos. O projeto, de médio a longo prazo, tem a finalidade de identificar, treinar e desenvolver os futuros atletas das seleções nacionais 3×3 e popularizar o esporte no país.

Na etapa do Campeonato Brasileiro de 3×3, que será realizada de 19 a 23 de julho, em Brasília, serão cadastrados 32 atletas (16 femininos e 16 masculinos). O procedimento será repetido em outras cidades que vão receber etapas, como Ribeirão Preto e Porto Alegre.

As competições de basquete 3×3 no Brasil são normalmente organizadas pela CBB, mas outras entidades, como a Associação Nacional de Basquete 3×3, também são autorizadas a criar campeonatos oficiais, sob supervisão da Fiba.

É fato que ainda temos um longo caminho para percorrer antes de pensarmos em medalhas olímpicas no basquete 3×3. Mas, em tempos de elitização de vários esportes antes reconhecidos como de massa (o futebol é o caso clássico!), é animador ver nos Jogos Olímpicos uma modalidade que guarda a essência democrática que faz do esporte um agente de transformação.

É possível entender que a expectativa para uma Olimpíada em casa seja a de quebra de recordes. Afinal, todo investimento que é feito no esporte de um país sede durante o ciclo olímpico –somado a fatores como apoio da torcida e motivação dos atletas por competirem em casa– normalmente é convertido no melhor resultado da história.

No Brasil, não foi diferente. Apesar de não alcançar a meta de entrar no Top 10, o país obteve o melhor rendimento entre todas as edições dos Jogos, com 19 medalhas: sete ouros, seis pratas e seis bronzes. Entretanto, o Brasil tem muito a aprender com a Grã Bretanha.

Sim, o resultado veio em 2012, em Londres. Os britânicos alcançaram o melhor desempenho e ficaram em 3º lugar, com 65 medalhas, 29 delas de ouro. O pulo do gato (quase um salto em altura!), entretanto, está no Rio de Janeiro. Não satisfeita em quebrar recordes em Londres, a delegação britânica superou as marcas de 2012 e conquistou uma inédita vice-liderança, superando a tradicional vice-colocada China.

O resultado torna clara uma constatação: o legado olímpico funcionou para a Grã Bretanha. O esporte inspira, de fato, mas o resultado não é por acaso. O governo britânico planejou investir 276 milhões de libras (cerca de R$448 milhões) na preparação britânica para as Olimpíadas do Rio, o que representa aumento de 5% em relação ao que foi aplicado no ciclo olímpico pré 2012. Pelo visto, a promessa foi cumprida e deu frutos.

Em geral, um atleta de alto rendimento demora cerca de dois ciclos olímpicos (oito anos) para ser formado. A pergunta é: será que o Brasil vai fazer como a Grã Bretanha e, de fato, se valer do legado olímpico? Infelizmente, começamos mal. Em junho, o Ministro dos Esportes, Leonardo Picciani, suspendeu o edital de R$ 150 milhões que visava, justamente, garantir os investimentos em modalidades olímpicas depois da Rio 2016 e causou revolta em atletas e confederações.

Na ocasião, a assessoria do Ministério do Esporte se limitou a justificar que “a suspensão do edital não afeta a preparação dos atletas para os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos Rio 2016”. E Tokio 2020? Nossa continuidade pode estar seriamente ameaçada.