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A torcida do Atlético Nacional e o povo de Medellín deram ao mundo uma das maiores demonstrações de humanidade com a homenagem às vítimas do voo da Lamia. O estádio Atanasio Girardot lotado gritava “Vamo, vamo, Chape” com uma força que poucas vezes se viu na história do esporte para lembrar a delegação da Chapecoense e os jornalistas mortos na tragédia.

Nem o tão obscuro mundo dos cartolas esportivos deixou de ser impactado com a tragédia. A diretoria do Atlético Nacional formalizou junto à Conmebol um pedido para que a Chape seja consagrada campeã da Sul-Americana e deve ser atendida com justiça. Diversos dirigentes do mundo todo também colocaram seus atletas à disposição para ajudar a reconstruir o clube.

Casos de solidariedade e união por meio do esporte, entretanto, não são novidade. Aliás, fazem parte da essência do universo esportivo. O blog Brasil Olímpico relembra cinco vezes em que o esporte foi mais que uma competição.

1. Recorde no mar

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O resultado nas piscinas ficou de lado por uma marca muito maior: nadar pela sobrevivência de 20 pessoas na fuga da Síria, durante a travessia do Mar Mediterrâneo. A nadadora Yusra Mardini, de 18 anos, e a irmã fugiram de Damasco quando a guerra da Síria se intensificou. Durante a passagem pelo mar para chegar à ilha grega de Lesbos, o motor do bote onde elas estavam com mais 18 pessoas estragou e a pequena embarcação corria o risco de afundar, já que estava superlotada.

Yusra não hesitou, pulou na água e ela, sua irmã e uma outra mulher ajudaram a empurrar o bote até a praia mais próxima. A saga durou três horas, nadando em mar aberto para que o bote chegasse a areia. Esta, com certeza, foi a mais importante competição que Yusra poderia vencer, a luta pela vida. Outra vitória foi a participação nos Jogos Olímpicos Rio 2016. O resultado pouco importa.

2. Solidariedade no Haiti

O 18 de agosto de 2004 foi um dia histórico para haitianos e brasileiros. A guerra civil que tomava conta do Haiti foi interrompida pelo menos por um dia para receber a Seleção Brasileira, no que ficou conhecido com o Jogo da Paz. O placar de 6×0 para o Brasil dentro de campo pouco importou.

Em carro aberto, jogadores como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Roberto Carlos foram seguidos por uma multidão, que sorriu depois de muito tempo de sofrimento com a guerra. As armas de fogo deram lugar a outra munição: a paixão pelo futebol e pela Seleção Brasileira, que contribui com a campanha do desarmamento que mudou a perspectiva de segurança no país mais pobre das Américas.

3. Imagem de união

1470733548_558175_1470735814_noticia_normalPelo menos por um segundo, uma selfie tornou irmãs duas nações declaradamente inimigas, as Coreias do Sul e do Norte. As ginastas Lee Eun-ju (Sul) e Hong Un Jong (Norte) tiraram uma foto nos Jogos Olímpicos Rio 2016 que representou muito mais que um registro de duas colegas de profissão.

A guerra entre os dois países acabou há mais de 60 anos, mas as relações diplomáticas entre as Coreia do Sul e do Norte nunca foram reestabelecidas. A imagem, captada pelo fotógrafo Dylan Martínez, da Reuters, foi considerada um dos símbolos mais representativos da história de união por meio do esporte.

4. A mão que levanta o outro

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O verdadeiro espírito olímpico deu as caras no Engenhão durante as competições de atletismo da Rio 2016. Na prova de 5.000 metros feminino, a neozelandesa Nikki Hamblin e a americana Abbey D’Agostino tiveram um contato involuntário, o que resultou na queda de Abbey, que torceu o tornozelo. Nikki parou e ajudou a americana a se levantar.

Abbey voltou a cair devido às dores e, novamente, foi acudida por Nikki, que demonstrou que uma vida de treinos não é mais importante que as dores das pessoas. Mesmo com todo o incentivo da corredora neozelandesa, a americana não conseguiu terminar a prova. As duas, entretanto, não saíram sem medalhas. Ambas foram coroadas com a medalha de Fair Play do Comitê Olímpico Internacional.

5. Vitória da paz

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E quando dois inimigos políticos caem em um mesmo grupo da Copa do Mundo? Felizmente, Estados Unidos e Irã aproveitaram a oportunidade na Copa de 1998 e mostram que o futebol é capaz de deixar de lado diferenças históricas. Apesar de o governo do Irã ter encarado a partida como uma verdadeira guerra, os jogadores de ambos as seleções optaram pelo espírito esportivo.

Os iranianos ofereceram flores aos americanos, que responderam com cordialidade e posaram para fotos abraçados. Nas arquibancadas, o que se viu foram torcedores exibindo bandeiras dos dois países lado a lado. A partida terminou EUA 1 x 2 Irã e foi a primeira e única vitória do país na história das Copas.

Leia mais sobre solidariedade no esporte: A verdadeira noite que nunca vai terminar

É possível entender que a expectativa para uma Olimpíada em casa seja a de quebra de recordes. Afinal, todo investimento que é feito no esporte de um país sede durante o ciclo olímpico –somado a fatores como apoio da torcida e motivação dos atletas por competirem em casa– normalmente é convertido no melhor resultado da história.

No Brasil, não foi diferente. Apesar de não alcançar a meta de entrar no Top 10, o país obteve o melhor rendimento entre todas as edições dos Jogos, com 19 medalhas: sete ouros, seis pratas e seis bronzes. Entretanto, o Brasil tem muito a aprender com a Grã Bretanha.

Sim, o resultado veio em 2012, em Londres. Os britânicos alcançaram o melhor desempenho e ficaram em 3º lugar, com 65 medalhas, 29 delas de ouro. O pulo do gato (quase um salto em altura!), entretanto, está no Rio de Janeiro. Não satisfeita em quebrar recordes em Londres, a delegação britânica superou as marcas de 2012 e conquistou uma inédita vice-liderança, superando a tradicional vice-colocada China.

O resultado torna clara uma constatação: o legado olímpico funcionou para a Grã Bretanha. O esporte inspira, de fato, mas o resultado não é por acaso. O governo britânico planejou investir 276 milhões de libras (cerca de R$448 milhões) na preparação britânica para as Olimpíadas do Rio, o que representa aumento de 5% em relação ao que foi aplicado no ciclo olímpico pré 2012. Pelo visto, a promessa foi cumprida e deu frutos.

Em geral, um atleta de alto rendimento demora cerca de dois ciclos olímpicos (oito anos) para ser formado. A pergunta é: será que o Brasil vai fazer como a Grã Bretanha e, de fato, se valer do legado olímpico? Infelizmente, começamos mal. Em junho, o Ministro dos Esportes, Leonardo Picciani, suspendeu o edital de R$ 150 milhões que visava, justamente, garantir os investimentos em modalidades olímpicas depois da Rio 2016 e causou revolta em atletas e confederações.

Na ocasião, a assessoria do Ministério do Esporte se limitou a justificar que “a suspensão do edital não afeta a preparação dos atletas para os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos Rio 2016”. E Tokio 2020? Nossa continuidade pode estar seriamente ameaçada.