Entrevista: Washington Nunes revela planos para o futuro do handebol brasileiro

O futuro do handebol masculino brasileiro passa pelas mãos –e pela cabeça– dele. Washington Nunes será o responsável pelo comando técnico da seleção brasileira masculina de handebol no próximo ciclo olímpico. A tarefa não é das mais fáceis: substituir o espanhol Jordi Ribera, que levou o Brasil à inédita passagem às quartas de final nos Jogos do Rio, à melhor colocação em mundiais (13º lugar na Espanha-2013) e ao domínio absoluto em todas as categorias sul-americanas.

Mas, Washington não se intimida. Conhece o desafio, afinal, já comandou a seleção entre 2008 e 2009 e foi assistente técnico de Ribera (2013-2016). A isso, soma-se a experiência de quase 30 anos trabalhando com handebol, o que dá a ele o know how necessário para assumir o posto.

O trabalho exige muita dedicação. Não por acaso, Nunes revela que, ao final da temporada, vai se despedir da equipe de São Caetano (SP) e se dedicar exclusivamente ao comando da seleção.

Em entrevista ao Brasil Olímpico, o técnico também fala sobre os projetos para o esporte nos próximos anos, o novo centro de referência da modalidade, as referências técnicas que podemos absorver das grandes potências e como manter o handebol entre os esportes que mais atraem o interesse do público brasileiro.

Um dos desafios de Washington é levar a seleção além das oitavas de final no Mundial de 2017. Foto: Cinara Piccolo/Photo&Grafia
Um dos desafios de Washington é levar a seleção além das oitavas de final no Mundial de 2017. Foto: Cinara Piccolo/Photo&Grafia

Esta é sua segunda passagem pela seleção. O que mudou na sua atuação como treinador desde 2008?

Em todo este período trabalhando em nível internacional, a gente vai assumindo novas tendências de treinamento. Acima de tudo, o esporte mudou muito. O handebol era mais lento, hoje é mais físico, veloz e intenso, o que o torna um esporte mais dinâmico. Automaticamente, você tem que mudar muito a forma de trabalhar e a metodologia de treinamentos, para que os jogadores atuem neste novo padrão.


Quais são os projetos para a seleção brasileira neste próximo ciclo olímpico?

Este é um dos motivos que mais me deixou contente com o convite para retornar à seleção. A ideia é dar continuidade a um projeto que foi satisfatório com o Jordi [Ribera, ex-técnico da seleção]. De certa forma, a gente conseguiu pontuar uma maneira brasileira de jogar e queremos continuar isso. Vamos dar continuidade aos campeonatos estaduais, aos encontros com treinadores para formação, ao Acampamento Nacional de Desenvolvimento e Melhoria Técnica e a montagem de grupos de treinamento.

Também temos o objetivo de capacitar jogadores, formar treinadores e melhorar o nível técnico dos atletas. Outro salto importante é o Centro de Treinamentos, que vai centralizar as ações relacionadas ao handebol para o Brasil inteiro. Teremos plataformas de aprimoramento técnico à distância e vamos conseguir, assim, alcançar treinadores de todo o país, o que vai impulsionar nossa seleção nos próximos quatro anos. Vamos dar continuidade a um projeto que foi muito bem planejado e agregar outras ações que vão tornar a modalidade ainda mais sólida.


Você programa mudanças na base da seleção brasileira para os próximos campeonatos?

A expectativa, especialmente para o Campeonato Mundial [que será disputado em 2017], é fazer uma pequena renovação. A gente já era a equipe com a segunda média de idade mais baixa nas Olimpíadas do Rio. Mesmo assim, a ideia é trazer mais alguns jogadores novos, que já passaram pelas categorias juvenil e júnior. Então, a inserção deles na seleção será natural, porque já passaram por um processo de base muito bem consolidado. Temos boas expectativas de classificação, apesar da chave difícil.

[O Brasil está no grupo A, ao lado de Noruega, Rússia, Japão, Polônia e França, atuais campeões mundiais.]


Por falar no Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol, que foi inaugurado recentemente em São Bernardo, como você avalia a importância desta iniciativa para o futuro da modalidade no Brasil?

O espaço pode ser o epicentro de um grande terremoto da modalidade, que vai gerar ondas para o Brasil inteiro. Observando o trabalho em diversos esportes, a gente percebe que é preciso desenvolver atores, como treinadores, jogadores, dirigentes e árbitros, com mais qualidade para o desenvolvimento da modalidade. Colocar em uso a casa do handebol vai abrir as portas para atores de todos os Estados, que vão adquirir conhecimento e levar isso para casa. O centro será um fator de um grande salto!


Em alguns esportes, e o handebol é um deles, a gente percebe uma valorização muito grande do conhecimento que vem de fora. O que podemos aprender com as grandes potências da modalidade?

Olhando um pouco para a nossa modalidade, a gente percebe que a interferência estrangeira nos ajudou muito. As referências de metodologia de treinamento e as informações sobre como aplicá-las, além de noções de organização geral do esporte, trouxeram um grande avanço para o handebol brasileiro. O Jordi foi o treinador que melhor executou isso e colocou em prática muitas ações importantes para o desenvolvimento da seleção. Ele e outros estrangeiros foram multiplicadores no país de um padrão de jogo que a gente não pode perder, mas sim, aprimorar. É preciso desenvolver isso, aliado a nossa forma de trabalhar.


O handebol foi um dos esportes que mais atraiu a atenção do público nas Olimpíadas. O que pode ser feito para que a seleção mantenha esta visibilidade?

O handebol tem muitas coisas que o brasileiro gosta. É dinâmico, sai gol –e desde pequeno a gente aprende a gostar disso. Mas, para manter o handebol nesse nível de expectativa a gente precisa, sobretudo, de mídia. A gente sabe que o que acontece no futebol não ocorre muito nos outros esportes. O vôlei tem a Superliga, o basquete também conquistou um espaço. Já tivemos isso, mas foi perdido por falta de interesse da TV. Se a gente conseguir recolocar a liga nacional de handebol na TV será um grande passo para manter o nível de interesse das pessoas pelo esporte.

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